Aprendemos que os outros é que têm o poder de nos fazer felizes ou infelizes. Os outros é que determinam o nosso valor. Os outros é que ditam a nossa auto-estima. Aprendemos a procurar validação, aprovação e amor nos lugares impossíveis de controlar: os outros.
A mente cria então seis gavetas onde irá guardar cada evento e pessoa da sua vida. Esta pessoa vai para a gaveta “bom”. Aquela pessoa vai para a gaveta “mau”. O abraço da mãe vai para a gaveta “bonito” e os beijos da tia para a gaveta “feio”. O gelado que o pai oferece vai para a gaveta “certo” e aprender a escrever para a gaveta “errado”.
E passamos o resto da vida a enfiar pessoas e experiências numa destas seis gavetas.
Mas o mais perverso é aquilo que fazemos connosco. Em que gaveta nos colocamos a nós? Como nos classificar se somos bons e maus, bonitos e feios, certos e errados?
Então a mente descobre um segredo. É mais fácil provar que sou mau, errado e feio. Mas admitir isto é cruel, é doloroso. Ninguém pode saber o que eu sei acerca de quem eu sou!
E a mente cria uma máscara! Queima-se, gasta-se a mostrar aos outros que é boa, bonita e certa. Somos capazes de abandonar outros para provar que estamos certos! Somos capazes de fazer coisas que não gostamos para provar aos outros que somos bonitos! E somos capazes de dizer sim quando queremos dizer não para provar que somos bons!
Só que este jogo de querer que os outros nos aprovem, validem e amem tem um preço. Iremos cobrar. Não dizemos quanto, mas iremos cobrar.
Dizemos à pessoa que decidimos ser aquela com quem queremos partilhar a vida “amo-te”. E se a pessoa não responde à nossa declaração, amuamos. Dizemos à amiga “o teu casaco é lindo” e se a amiga não repara no novo penteado chamamos-lhe distraída, ou pior. Damos mimos ao filho e se ele tira negativa num teste zangamo-nos ou castigamos a criança.
Isto é bom, e aqui estão as provas. Isto é errado, e aqui estão as provas. Aquilo é feio, e aqui estão as provas.
Agimos como se fossemos deuses. Classificamos tudo e todos como sabendo a verdade e fossemos detentores dessa verdade. Pura arrogância.
Ainda crianças descobrimos o prazer de brincar com as bonecas, de jogar à bola, de passear com os pais, dos bolos e gelados, da televisão, dos mimos e afectos. E aprendemos a manipular. Quando não temos aquilo que queremos. Quando nos é negado o prazer de brincar, de passear ou de comer bolo. Amuamos, fazemos birra, inventamos uma dor, partimos o jarrão favorito da mãe, batemos no irmão.
E como adultos não crescemos. Os prazeres podem mudar. Em vez de passear com os pais, podermos adquirir o gosto pelo sexo ou pelas drogas duras. Em vez do bolo podemos passar a gostar de ir à discoteca.
E sentimo-nos menos bem sempre que não temos acesso aos nossos prazeres. A mente esquizofrénica procura o prazer continuado. E quando não o tem fica aborrecida, triste, frustrada, ansiosa, enraivecida, deprimida.
A mente continuamente a gritar: isto está errado! Quero brincar!
E muitas, muitas pessoas, queridas na sua inconsciência, ficam tensas quando vão trabalhar, porque preferiam ir passear. E ficam deprimidas quando estão sós, porque preferiam estar a beber um café com os amigos. E ficam nervosas quando têm compromissos, porque preferiam não os ter. Querem ser crianças toda a vida.
Querem ter a atenção, o amor, a aprovação dos outros. E quando não têm... mágoa, frustração, depressão.
As vítimas são as pessoas mais cruéis. Mutilam-se a si mesmas e mutilam os outros à sua volta. Pura inconsciência. Não sabem que o fazem. Pensam-se crianças a quem não é permitido brincar só mais um bocadinho. E daí algum ressentimento quando se comparam com outros que parecem estar sempre a brincar.
E esquecem que a vida, esta vida que se vive através de tudo e todos, brinca. Deliciada consigo mesma. E a vida acontece sem a autorização da mente.
Sempre que sofremos é porque estamos a acreditar numa mentira. A primeira mentira é sempre esta: aquilo que está a acontecer não deveria acontecer. E é mentira pelo simples e óbvio facto de que aquilo que está a acontecer é aquilo que está a acontecer.
Já reparaste que uma criança quando brinca esquece-se das dores, do mal-estar, das birras? Nós somos assim. Quando estamos a fazer aquilo que nos dá prazer esquecemos tudo. Não há espaço para ansiedade, nervosismo, tristeza, mágoa. Estamos presentes no prazer. E queremos que esse prazer nunca termine.
E é possível sentir prazer todo o dia. Se conseguirmos acordar e sabermo-nos adultos. Prazer na viagem de carro para o trabalho. Prazer nas sensações de tocar em folhas de papel. Prazer em ouvir um colega. Prazer no sabor de um café. Prazer quando o chefe nos chama à atenção (é porque gosta de nós, certo?). Prazer quando damos uma aula e ninguém parece interessado.
Se eu faço algo para obter a aprovação, validação ou amor dos outros, o que me acontece quando não obtenho aquilo que quero? Como me sinto? Como me trato a mim e aos outros?
E se eu não precisar desta aprovação, validação e amor dos outros? Então tudo o que faço é para mim! Tudo para mim! Quando digo que te amo, é para mim que o digo. Sabe-me bem e sinto-me bem na doçura de um “amo-te”. E se o receptor da minha doçura volta as costas, é óbvio que tem um problema, eu continuo com o sabor das palavras doces na minha boca e na minha alma. Quando trabalho faço-o pelo prazer de ser uma parte de um todo para o bem maior de todos, e tenho um prazer enorme no trabalho! E se ninguém valoriza o que faço, valorizo-me eu! Quando ensino faço-o pelo enorme prazer de partilhar o conhecimento, e se ninguém quer aprender, sou poupado a muitas perguntas!
Quando não preciso que outros me validem, aprovem ou amem, elimino os intermediários do meu bem-estar. Torno-me produtor e recipiente, fornecedor e cliente, criador e ainda o que desfruta da criação. Há poder, magia e deleite em não precisar dos outros estes três ingredientes de uma vida deliciosa.
E há uma forma de começar a dissolver as seis gavetas onde colocamos tudo e todos. Sempre que surge o pensamento a catalogar alguém ou alguma coisa, sempre que a mente se pensa “isto é bom, aquilo é mau”, posso ponderar na possibilidade de estar errado. De não saber a verdade.
E tudo o que escrevi antes pode estar errado. É que eu não sei mesmo. Só sei que me soube bem observar a vida, através desta mente, destes dedos, destas teclas, deste computador, desta internet, a viver-se.