---

EMIDIO CARVALHO

---
Emidio Carvalho / Blog / Im-Pressionar
A+ R A-

Passamos uma vida inteira a procurar ser amados pelos outros. Incapazes de nos amar a nós mesmos, esperamos que outros o façam por nós. E fazemos tudo o que nos é possível para obter o amor dos outros. A mente tenta desesperadamente im-pressionar aqueles que acredita podem amá-la.

Passei alguns meses a observar como esta mente tentava im-pressionar os outros. As formas, mais ou menos subtis, de manipulação.

Se alguém contava uma anedota, mesmo que achasse ser estúpida, ria-me. Tentava assim im-pressionar com o meu sentido de humor.

Contava aos outros as minhas des-graças, à espera de apoio e validação. Falava das minhas des-graças para ouvir os outros dizerem-me “és tão corajoso”, ou “não sei como consegues”, ou “tu és capaz de superar isso”, ou, a minha favorita “coitado, és uma pessoa tão boa, não merecias isso.”

Outra forma de tentar im-pressionar os outros era mantendo-me sempre disponível. Muitas vezes abdicava daquilo que me proporcionava paz de espírito, prazer, calma, para ir em socorro de quem não queria ser socorrido. Queria que aqueles que ajudava pensassem que eu era uma pessoa boa.

Nunca tive uma opinião formada sobre qualquer que fosse o assunto. Antes, tentava descobrir qual a opinião dos outros e depois concordava com eles. E acreditava que os im-pressionava com a minha inteligência.

Nunca perdia uma oportunidade de falar das minhas conquistas profissionais! Outra forma de tentar im-pressionar os outros.

E quando a vida não corria como eu queria, im-pressionava os outros queixando-me das vicissitudes da vida, dos pais, dos amigos, dos funcionários, do governo, dos planetas, e de tudo o que pudesse mostrar que eu até era forte e boa pessoa, mas a vida era tramada.

O meu maior medo era que aqueles que tentava im-pressionar morressem. Se eles morressem, quem iria dizer que eu era corajoso, ou forte, ou inteligente, ou organizado, ou bem-sucedido, ou amoroso, ou simpático, ou boa pessoa, ou carinhoso, ou... estúpido?

Fazia algo de útil a outro e corria a contar a quem me dava ouvidos. Tentava im-pressionar através de boas acções. E perdia o prazer de ter feito algo pelo simples gozo de o fazer. “Dei dinheiro a esta instituição, alimentei o sem-abrigo, ajudei a idosa com as compras, consegui ajudar a amiga depressiva, curei a doença de um cliente...” Tudo para conseguir im-pressionar os outros. E tudo mentira.

Descobri que quando dou o que quer que seja e mais tarde conto a outros, nunca dou nada. Quero aprovação, validação e amor. Tento im-pressionar.

E passei quarenta anos a procurar que outros fizessem aquilo que eu não era capaz de fazer: amar-me, respeitar-me, valorizar-me a aprovar-me.

E neste processo não me apercebia o quanto magoava os outros e perdia a oportunidade de estar presente para mim.

Por que fico magoado quando outros discordam das minhas opiniões? Porque não fui capaz de os im-pressionar com as minhas histórias. Porque quero que todos concordem com esta mente demente que conta histórias de desgraças e coitadinhos.

E ao fazer isto nem me apercebo que me roubo poder. E depois vem a depressão, a ansiedade, o desespero. E culpo os outros, Deus, a Vida, a mãe, o filho, a tia, o patrão, o governo. Roubo-me poder.

Antes, vivia constantemente preocupado com o que os outros pensariam de mim. Preocupava-me com dar a resposta certa. Preocupava-me com o bem-estar dos outros. Preocupava-me com o corpo. Preocupava-me com a doença. Preocupava-me com o planeta. Preocupava-me com a violência doméstica. Preocupava-me com a injustiça lá fora, no mundo. Preocupava-me com a falta de dinheiro. Afinal, tinha aprendido, as pessoas boas fazem isso.

E depois observei como a preocupação era uma fraude. Era uma forma de im-pressionar aqueles que queria que me amassem. Acreditava que preocupar era sinónimo de amar.

Em vez de me preocupar com o planeta, que tal viver uma vida em que não contribuo para a guerra, a poluição, o mal-estar global? Poderia começar por mim? Afinal não tenho qualquer poder para mudar os outros. Apenas posso mudar-me a mim.

Quando desisto de im-pressionar os outros, as suas opiniões sobre mim são irrelevantes. Antes dizia que o que os outros pensavam de mim era secundário. Mas se alguém dissesse que eu era mau, ficava revoltado. Se alguém dissesse que eu era egoísta, ficava magoado. Se alguém dissesse que eu era vítima, ficava ressentido.

Quando parei de querer im-pressionar, e descobri que era mau, egoísta e vítima, a vida começou a sorrir. Era mau, para os outros mas mais ainda para mim. Era egoísta sempre que fazia algo não pelo prazer de o fazer mas para obter a aprovação dos outros. E era vítima sempre que me queixava da vida.

Ainda bem que a Vida me apoiou sempre, mesmo quando eu não era capaz de me apoiar a mim.

Hoje sei ouvir os outros sem querer im-pressionar. Se quiserem falar, eu ouço. Contam histórias. Sei como funciona, também o fiz durante muitos anos. E todas as histórias de sofrimento se resumem ao mesmo “coitado de mim”.

E quando experimentei parar de im-pressionar, quando respeitei as opiniões dos outros sem forçar a minha opinião, quando querer que os outros gostassem de mim se tornou anedótico, a Vida abriu os braços. Cento e oitenta graus de puro deleite.

Hoje im-pressiono-me a mim. Não controlo nada. Tenho um ataque de fúria. Desfruto-o completamente durante os vinte segundos que permanece em mim. Invade-me a ansiedade e desfruto-a durante os vinte segundos que me visita. O meu estado natural é de quase permanente assombro e curiosidade. A Vida torna-se deliciosa. Se os outros me amam, sei que é bom para eles. Sei o que é amar-me, e se outros me amam só podem sentir o que eu sinto. E se os outros me odeiam, sei também o que isso é, já me odiei. E no entanto, apesar de outros terem o poder de me odiar, eu continuo a amar-me, sem necessidade de ser amado.

Há muita pressão na vida de todos nós quando queremos im-pressionar os outros. Não vivemos – sobrevivemos. E doemo-nos.

Joomla Templates and Joomla Extensions by ZooTemplate.Com
Last modified on Segunda, 16 Julho 2012 21:43
Emídio Carvalho

Emídio Carvalho

Ocupação: Educador Emocional
Local: Porto, Portugal

Website: www.emidiocarvalho.com

Leave a comment

O resgate dos aspectos negados, rejeitados e deserdados do ser humano. Descobrir o ouro por detrás da escuridão.

Comentários

Direitos de Autor

Muitos me perguntam e pedem autorização para usar os artigos do Blog e das Newsletter no sites.

Autorizo a partilha em diferentes sites, desde que respeite as seguintes condições:

  1. Não copiar o texto na sua Integra
  2. Colocar o link da Origem do Conteudo.

O motivo é o facto de os Motores de pesquisa penalizarem o ranking dos sites sempre que detecta conteudo duplicado, ou seja o mesmo texto em diferentes caminhos URL'S.

Mais informações por favor contacte-me.

Emídio carvalho

Quem Está Online

Temos 4 visitantes em linha

Siga-nos no Facebook

Sessoes Individuais

Terapias que pratico:
Cura Reconectiva (Reconnective Healing); Reflexologia; Massagem Psico-sensual; Libertação Emocional; Toque Sagrado; Resgate da Sombra.
Mais Detalhes...

Contacto

Telemóvel: 916 055 021
Rotunda da Boavista, 60, 3º Traseiras
Porto - Portugal

Se por qualquer motivo não atender, por favor envia sms.

Add me to Skype