Falas que os políticos são corruptos. E onde é que tu és corrupto? Não será corrupção acreditares que outros são responsáveis pela tua felicidade? Não te deixas corromper quando permites que outros sejam a causa do teu mal-estar?
Falas que o amor da tua vida te abandonou. E onde é que tu me abandonas? Quando me julgas sem me conheceres. Quando acreditas que sabes o que é melhor para os outros. E abandonas-te quando te dedicas à vida dos outros e não estás presente para ti.
Falas daqueles que te criticam e deitam abaixo. E onde é que tu me criticas e deitas abaixo? Observa como quando criticas outros por criticarem e deitarem abaixo, estás a fazer precisamente a mesma coisa.
Falas que tenho o vício do café, ou do tabaco, ou da pornografia. Qual é o teu vício? Viveres a vida dos outros é apenas um. Dedicares-te a como os outros deveriam comportar-se é outro. Preocupares-te incessantemente com o futuro é outro. Viver no medo é outro. Há muitos vícios. Qual é o teu vício de eleição?
Falas que o planeta está poluído, a vida está mal e 2012 e tal. Porque me mentes? O planeta está aqui há tempo suficiente para se cuidar. E onde andas tu poluído? Como te poluis a ti? Que pensamentos poluem a tua mente? E acreditas que há 2012! Esta é a maior mentira que podes contar. Falas no agora e em 2012, incapaz de escolher. Nem sequer 2011 existe. Apenas este momento. E a maior poluição talvez seja esta: tu não consegues viver o momento presente porque tu és o momento presente.
E falas dos outros pelo medo de ir dentro.
Por isso ele cada dia sente menos desejo de escrever, de falar. Sabe que não precisa. Observa, ouve e age. A acção seguinte é sempre determinada pelo presente.
Ele não tem respostas. Seria arrogância ter respostas. Apenas perguntas.
Ele não precisa de ser validado, nem apreciado, amado ou aprovado. Respeita as tuas histórias sobre ele. Sorri. Sabe que são histórias e sabe que tens direito a cada uma delas. São as tuas histórias. É de ti que se trata sempre. Por isso dói. São as tuas feridas.
Ele também tinha feridas, muitas. E sabe o que isso significa. O sofrimento do passado a experienciar-se no presente. E a busca dos bodes expiatórios. Doloroso.
A sombra abraça-se. Uma dentada de cada vez. E à medida que a sombra é abraçada ele não consegue ver mal e bem, certo e errado. Não é possível. Apenas a vida a fluir. Perde-se no fluxo. Sente-se vivo. Deliciado na deliciosidade da vida.
Ele quer saber como será o futuro. Ri-se. O futuro é assim: agora, aqui está ele! Ah! E agora, aqui está mais um pouco de futuro! E mais um pouco.
Ele sabe que se quiser sofrer só tem que arranjar um futuro que é mentira: amanhã. Ou contrair-se num passado que também é mentira: ontem.
Ele observa como cada justificação é uma tentativa de manipulação. E não fica na ansiedade de querer que os outros compreendam.
Observa como alguns tentam fazer dele quem ele não é. E ri-se um pouco mais.
Ele sabe que ninguém tem que abraçar a sombra. Ninguém tem que se trabalhar. Ninguém tem que estar certo ou errado. Ninguém tem que mudar. Apenas ele. Muda-se continuamente, ao sabor da vida.
E depois surge o pensamento: vai um gelado Haegan Dazs Chocolate Belga? Vai com toda a certeza.
E se alguém quiser ele adora partilhar.
