Ele acredita que se estiver em paz com todas estas situações, então não irá contribuir para que a realidade mude.
Esta forma de viver, acreditando que temos que estar contra algo para contribuir para que mude, é masoquista.
E amar aquilo que é, estar em paz com aquilo que é, não significa nunca uma atitude de passividade. Amar aquilo que é é viver a partir do amor puro e incondicional. E a partir deste espaço entramos em acção. O amor vive para dar de comer aos que têm fome. O amor vive para criar paz onde há guerra. O amor vive para tornar o planeta um lugar paradisíaco. O amor vive para cuidar dos que são abandonados. Mas fá-lo em paz.
Observo a minha vizinha carregada com sacos a tentar abrir a porta do prédio. Ajudo-a. Não fico revoltado por ela não ter alguém a ajudá-la. Fico enamorado pela experiência de ser a ajuda.
Observo o cão abandonado no passeio. Como sei que está abandonado? Não sei. O cão parece sorrir para mim. Entro na pastelaria e compro fiambre para lhe dar. Não tenho onde o acolher aqui. Da mesma forma que a Vida lhe deu fiambre, através de mim, o que me leva a acreditar que outro não lhe dará abrigo? E depois de comer, o cão parte. Parece dizer-me “fizeste o que precisava de ser feito”.
Mas se acredito que um ditador causa dor, onde é que eu ando a causar dor com a minha ditadura? Talvez ao querer ditar como o mundo deveria ser. Ou talvez ao ditar como os outros deveriam tratar-me. Os outros deveriam sorrir para mim! E deveriam ser simpáticos! E deveriam estar disponíveis!
E se acredito que o planeta precisa de ser salvo, onde é que eu preciso de ser salvo? Talvez precise de me salvar das opiniões que tenho sobre o mundo. Ou talvez precise de me salvar do hábito de criticar tudo aquilo que não posso controlar. Ou talvez precise de me salvar da necessidade que tenho de ser amado.
E se acredito que há crianças a morrer à fome, qual é a fome que me está a matar? Poderia tratar primeiro da minha fome? Se eu não tiver fome, serei um exemplo de como dar um fim à fome do mundo. E depois de saciado ser-me-á mais fácil ajudar os que têm fome. Ah! Tenho fome de aprovação! E tenho fome de ser visto como uma pessoa que se preocupa com os outros. Esta era a minha fome. Agora ajudo os que têm fome, mas faço-o em paz.
O que muitas pessoas não parecem saber ainda é que quando o amor por nós é total, entraremos em acção muito mais depressa. O amor vê injustiça e pergunta-se como pode ajudar. O amor vê um cão abandonado e pergunta-se como pode ajudar. O amor vê guerra e pergunta-se como pode contribuir para a paz.
A mente está sempre a olhar à sua volta, à procura de tudo o que está errado. Até acordar acredita que o problema está fora de si, no mundo lá fora. Um inferno.
Mas quando a mente acorda, descobre-se. Observa onde anda em guerra, e a passar fome. Onde se abandona e causa dor. E depois torna-se um exemplo. Regressa a si. Delicioso.
A mente, a que escreve isto, sabe que é tudo o que vê. O cão abandonado: eu sou isso. O ditador malvado: eu sou isso. O colega ranhoso: eu sou isso. O amigo a viver um inferno: eu sou isso. As pessoas antipáticas: eu sou isso. A opinião que tens deste texto: eu sou isso.
Neste momento sinto-me completo. Vou saborear este momento. Também sou isso.
