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EMIDIO CARVALHO

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Emidio Carvalho / Blog / Porque fazemos o que fazemos
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04 Fev

Porque fazemos o que fazemos

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Por detrás de muitas das nossas acções escondemos aquilo que acreditamos precisar dos outros. Fazemos algo a outro e se o outro não retribui ficamos, no mínimo, desapontados. E isto significa que nunca fazemos nada pelos outros, ou para os outros.

Quantas vezes enviaste já uma mensagem pelo telemóvel a alguém que consideras especial? E se essa pessoa especial não te respondeu, como ficaste?

Quantas vezes já ajudaste um amigo e num momento em que lhe pediste para te fazer companhia esse amigo não podia? E como é que tu ficaste?

Quantas vezes deste os “bons dias” a alguém e essa pessoa não retribuiu? E como é que ficaste?

Quantas vezes disseste a alguém “amo-te” e não houve um “também te amo” de retorno? Como é que ficaste?

Quantas vezes ofereceste um presente a um filho, sobrinho, pai, e esse presente foi “re-oferecido” a outro? E como ficaste?

E quantas vezes, ao longo do dia, nos dedicamos a pensar e falar dos outros por forma a sentirmo-nos melhor acerca de nós? Porque criticamos e deitamos abaixo os outros? Porque no fundo não acreditamos na nossa bondade.

Antes de afirmar que um político é corrupto, és capaz de descobrir onde és corruptível e corrompes outros? Talvez quando ajudas outro e esperas um retorno? Ou quando disfarças o teu mal-estar para que gostem de ti? Ou quando prometes um novo brinquedo ao filho se ele tiver a nota que tu queres que ele tire a matemática? Observo como a nossa vida está cheia de subornos, chantagem, manipulação. E depois criticamos os políticos.

Ouço falar de amor incondicional, e observo como não sabemos viver esse amor incondicional. No amor incondicional é impossível estar de mal com a vida. É impossível estar triste. É impossível amuar. É impossível criticar o que quer que seja, ou quem quer que seja.

Amor incondicional é amar o filho quando tira uma boa nota, ou negativa. É amar o marido quando está presente e quando se esquece do jantar romântico que tinhas programado. Amor incondicional é saber que tudo e todos são perfeitos e existem para a minha aprendizagem.

Depois há aqueles que pegam nesta teoria bonita e tornam-se “negadores”. Basicamente vivem a vida a fingir que é tudo cor-de-rosa e bonito e não é preciso fazer nada. Estas pessoas vêem alguém a cair no passeio e dizem “cair é ok” e continuam em frente como se nada tivesse acontecido. Ou têm uma dívida para pagar e dizem “se não tenho dinheiro para pagar, é porque não é para pagar”. E continuam como se nada tivesse acontecido.

Amor incondicional é estar atento ao que a vida me pede no momento. É acção. Alguém cai no passeio, o que posso fazer a seguir? Ajudar a pessoa a levantar-se. Há uma dívida para pagar, e não tenho dinheiro, o que posso fazer a seguir? Talvez dedicar-me a descobrir como as minhas habilitações e conhecimentos podem ser trocados por dinheiro? Observo como a vida é injusta e posso descobrir onde sou injusto para comigo, e para contigo.

Amor incondicional é ainda viver isto: eu não preciso que tu estejas bem para eu estar bem. É aqui que eu liberto os outros para serem quem são. E se tu não estás bem, há alguma coisa que eu possa fazer? Se há, e eu posso, faço-o. E se me dizes para te deixar em paz, faço-o.

Quando um pai fica triste com o comportamento do filho ensina-lhe que é sua responsabilidade fazer o pai feliz. Quando a esposa fica magoada por o marido não lhe dar um carinho. Quando fico zangado com o amigo porque se esqueceu de mim.

Enquanto quiser que os outros se comportem como eu quero não poderei ter a experiência do amor incondicional.

E se um filho tira negativa, poderia mostrar-lhe que é sua responsabilidade estudar, sem insinuar o quanto as suas notas são importantes para o meu bem-estar?

Na sexta-feira passada combinei com o querido Rui irmos ao cinema, à sessão das 19.10h. Às 18.30h o Rui telefona-me a dizer que ía sair de casa. Disse-lhe que era melhor esquecer o cinema, nunca chegaria a tempo. E desliguei. Fui cruel. E ri-me.

Ri-me porque acreditei durante alguns segundos que o tempo é algo quantificável. Ninguém consegue chegar a um sitio antes de chegar. E chega sempre no tempo que chega, nem um minuto antes ou depois. E se o Rui não conseguisse estar no cinema à hora do filme, é óbvio que eu poderia ir só. Se queria mesmo ver o filme. Não tenho que impor uma condição à vida: “eu só vou ao cinema se alguém for comigo”. E depois vi como podia desfrutar do espaço até à hora do filme: uma livraria ao lado do cinema! Vi um livro delicioso: cuidado com as pessoas boas! Li um pouco e escolhi comprar. A premissa do livro é simples: as pessoas que se consideram boas irão sempre cobrar a sua bondade. Delicioso. E sentia a alcatifa debaixo dos meus pés, a iluminação sobre os livros, as pessoas a passear entre estantes, tinha dinheiro para comprar livros... tanta coisa boa! Tanta! Só podia estar grato ao Rui, e à vida, por me proporcionar este momento comigo. Regressou o pensamento “não é hoje que vais ao cinema” e ri-me. Eu não ía ao cinema, eu estava a viver o cinema! O filme na mente era delicioso! Alguém deu-me dois beijos na face e disse “olá Miguel!”. Naquele momento eu era Miguel. O sorriso da mulher era divinal. Não sei porquê respondi-lhe “Acho que não sou o Miguel, mas gostei dos beijos.” A senhora riu-se. Eu ri-me. Ela pediu desculpa. Aceitei o pedido de desculpa. E ri-me mais. Ela disse-me que não via o Miguel há mais de dez anos, que era parecido comigo, e que tinham combinado encontrar-se naquela livraria. Eu sou parecido com a história que ela conta do Miguel. Que sorte tem o Miguel! Uma história muito amorosa, sem dúvida. E depois de pagar o livro caminhei para o cinema. Não sei porque o fiz, limitei-me a seguir as instruções simples da vida. “Agora caminha até ao cinema”. Comprei pipocas. E também não sei porque o fiz. E quando o empregado atrás do balcão, sempre prestável e atencioso, me entregou a embalagem de pipocas notei que o Rui estava ao meu lado, à minha espera. Afinal o pensamento original era mentira. Não fui eu quem esperou pelo Rui, foi o Rui que esperou por mim. Ri-me. E fomos ver o filme. Não foi tão bom como o filme na mente. O filme da mente é aquilo que é. E o que tiver que ser, será.

Claro que eu tive outra opção. Ficar chateado, pensar em todas as vezes que o Rui se atrasou, como os outros não têm consideração por mim, nem respeitam o meu tempo... E criar um inferno pessoal. E seria tudo mentira.

Fazemos o que fazemos porque é o que fazemos.

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Úlima modificação em Quarta, 11 Abril 2012 02:40
Emídio Carvalho

Emídio Carvalho

Indústria: Educação
Ocupação: Formador/Terapeuta Educação Emocional
Local: Avanca : Estarreja : Portugal

Website: www.emidiocarvalho.com

1 Comentário

  • Adorei o que acabei de ler, obrigada pela partilha!
    Gostava muito de o conhecer pessoalmente... sim porque com tudo o que tenho lido seu...!
    tem-me feito muito bém! Obrigada a si e oa meu irmão,Rui.

    Aurora Castro Domingo, 05 Fevereiro 2012 03:57 Comentário Link

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O resgate dos aspectos negados, rejeitados e deserdados do ser humano. Descobrir o ouro por detrás da escuridão.

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