Se eu acredito que as pessoas mentem, quando te atrasares irei querer saber o porquê do atraso. E não acreditarei na tua resposta. Só perguntei para validar aquilo que eu já sabia acerca de ti.
Porque motivo haveríamos de querer saber porque o outro faz algo, onde, quando, com quem?... Porque somos inseguros. Não acreditamos em nós. E projectamos esta insegurança no mundo à nossa volta.
Dizemos que amamos o outro e depois queremos saber com quem esteve, a que horas, onde, e a fazer o quê. E ai de que o outro se atreva a sorrir mais para o amigo do lado do que para mim! Vou querer saber o que se passa, claro! Não confio em mim, não acredito o suficiente em mim.
E vou querer que os outros mudem, uma vez que eu não sou capaz de mudar.
A mente faz um discurso parecido com isto: "se me amasses de verdade irias compreender-me". Como se a mente conseguisse compreender alguma coisa enquanto faz um filme a dividir o mundo em certo e errado, bom e mau.
Demorei alguns anos a descobrir que sempre que alguém me pedia uma explicação estava em realidade a tentar manipular-me. Estava a dizer-me "eu não te amo o suficiente para saber que o que tu fazes ou dizes é o apropriado para ti. - por favor agrada-me e diz-me o que eu quero ouvir."
Tenho uma relação intima com uma pessoa maravilhosa. Nunca me pede para me explicar, nem para me justificar. Não precisa que eu explique nada. Liberdade total. E nessa liberdade eu escolho o que é melhor para mim, sabendo que os outros beneficiam das minhas escolhas.
Há uns meses atrás uma grande amiga recusou-se a partilhar um jantar com outros amigos em comum que estavam de visita, da Ilha da Madeira. Nunca pedi que se justificasse. Não precisava. E desde essa altura ela não voltou a ligar. E é ok. O amor que sinto pelos outros é tanto que não preciso que vivam para eu os amar.
Ensinamos as crianças a mentir e manipular muito cedo. Aprendem que se tiverem o comportamento que esperamos delas, nós ficaremos felizes. Caso contrário ficaremos tristes. E é culpa delas, claro! ("se tirares boas notas eu fico feliz, por ti, claro! E se chumbares, eu fico triste, por ti, claro!")
As pessoas à nossa volta fazem o que fazem e dizem o que dizem, e nós acreditamos que se trata de nós! Acreditamos que somos o centro do universo! Queremos que os outros mudem para estarmos bem.
Eu sei quem quero para amigo: a pessoa que não impõe condições. A pessoa que se trabalha a si em vez de criticar os outros. A pessoa que se observa e descobre, em vez de gastar energia a compreender os outros. E continuo a amar. E nem sequer preciso que os outros me amem de volta. E isto não significa desfazer-me em desculpas sempre que o meu comportamento é rotulado como inapropriado. Eu sei quando o meu comportamento é inapropriado: quando me causa stress. E peço desculpa se for inapropriado. E nos últimos meses dou por mim a não pedir desculpa a quem quer que seja. Os outros têm o direito de acreditar nas histórias que contam acerca de mim. Raramente correspondem à realidade. Qualquer história que conte de ti, é de mim que falo. E por vezes a única história que consigo contar sobre outro é esta: "fui poupado!"
Ao pedirmos uma explicação fazemos outra coisa interessante: colocamo-nos no lugar de vitima. Coitado de mim. O mundo não me compreende.
Tenho novidades: o mundo jamais te compreenderá. Tu não és matéria de estudo de ninguém. Mas experimenta compreender-te a ti e garanto-te que terás material para uma vida.
