Eventos 2012 do Emidio Carvalho
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EMIDIO CARVALHO

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Emidio Carvalho / Blog / O que eu quero de ti
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29 Nov
a mente não ama, quer coisas a mente não ama, quer coisas
Há uns anos ouvi uma expressão que me deixou atordoado: a mente não ama, quer coisas.
Durante dias seguidos observei-me a querer tudo o que queria dos outros. Sem qualquer respeito pelo que os outros queriam. Acreditava que sabia o que era melhor para os outros e o que os outros deveriam querer: aquilo que eu queria. Descobri mais uma entrada para viver no inferno.
Ao longo do dia a mente faz listas de tudo aquilo que quer dos outros, e depois chama-lhe amor.
 
Eu quero que o filho seja um bom aluno.
Eu quero que faça sol.
Eu quero que sorrias para mim quando acordo.
Eu quero que me ajudes nas tarefas da casa.
Eu quero que a mãe me compreenda.
Eu quero que o patrão reconheça o meu trabalho.
Eu quero que a irmã diga que sou uma pessoa boa.
Eu quero que os outros gostem de mim.
Eu quero menos trânsito na estrada.
Eu quero que tu não te atrases.
Eu quero que o pai se lembre do meu aniversário.
Eu quero que me sejas fiel.
 
Todos estes quereres são as necessidades de uma mente louca. Como posso eu esperar que tu queiras algo que não queres? Eu não me consigo obrigar a querer gostar de favas, nem de crianças choronas. É impossível eu querer algo que não quero. E no entanto eu quero que tu queiras algo que tu não queres.
 
Eu quero sexo contigo hoje. E não quero saber se tu não queres, ou estás cansado, ou aborrecido, ou sem vontade. Se eu quero sexo contigo, tu tens que querer sexo comigo. Esta atitude é uma prova irrefutável de falta de amor. Eu amo-te e quero estar contigo e quero sexo contigo. E não me interessa o que tu queres. Quero que tu queiras o que eu quero que tu queiras.
 
Quantas vezes fazemos coisas apenas para agradar, para que o outro queira o que nós queremos que ele queira? Sem qualquer amor por nós ou pelo outro.
 
Há uns dias uma amiga queixava-se do Ministério da Educação. E basicamente dizia-me tudo o que estava mal e como queria que tudo mudasse. Esquecia-se de um pormenor: eu nunca vou conseguir que os outros mudem, é impossível. Mas posso mudar eu. E se não gosto das ordens de um superior posso apenas queixar-me, e garantir o meu inferno pessoal, ou posso mudar-me. Não estou a dizer para aceitar, isso é traição a mim. Posso mudar, posso deixar o emprego, posso criar uma nova ocupação para mim.
 
Se o teu comportamento é um atentado à minha ética, mudo. Mudo de emprego, mudo de relação, mudo de local. Mas enquanto eu não mudar, nada irá mudar. E se o patrão me diz que quer que eu trabalhe mais horas, e eu observo como isso implica menos tempo para a família, não me queixo do patrão. Informo-o da importância que o tempo para a família é para mim, e digo não. E procuro outro emprego.
E muitas pessoas pensam que abandonar um emprego é mau e dificulta a vida. E pergunto-me eu qual será melhor, um emprego onde não me sinto realizado e que não me dá prazer, ou estar desempregado. E claro que há sempre consequências. Eventualmente posso tornar-me mais um sem-abrigo. E ser-se sem-abrigo implica muita coragem. Só alguém com muita coragem consegue viver sem posse alguma.
E como trato o filho quando quero que ele seja bom aluno e todos os dias ele esquece os trabalhos de casa e tira negativa a todas as disciplinas? Como é que falo com ele, como lhe preparo uma refeição, como lhe mostro que o amo? Criticando as suas notas, chamando-lhe burro, comparando-o com a irmã, deitando abaixo qualquer réstia de auto-estima?
 
Quem é que eu seria sem a necessidade do filho ser bom aluno? Como me trataria a mim e como trataria o filho, sem esta necessidade? Talvez com mais amor.
 
E se é fácil os outros quererem o que eu quero, poderia começar a dar o exemplo? Onde é que eu não sou um bom aluno? Onde é que eu não aprendo? Talvez não aprenda que o filho gosta mais de arte, ou teatro, ou mecânica. Ou talvez aprenda que um filho não é as notas que tira. E poderia dar ao filho o exemplo de que é bom estudar? Começando a estudar-me, a estudar o meu comportamento, o meu relacionamento com os outros?
 
E descobrindo onde sou igual ao filho. Com a diferença que não é um professor a dar-me a nota negativa. Sou eu mesmo. Quando me deito abaixo, quando critico o meu corpo, quando culpo os outros por algo que é minha inteira responsabilidade.
 
Jamais conseguirei mudar os outros, mas posso mudar-me a mim.
 
Eu quero que tu me faças feliz - perdoa-me, em realidade eu quero fazer-me feliz.
Eu quero que sejas um bom aluno - perdoa-me, eu quero ser um bom aluno e aprender contigo.
Eu quero que sorrias para mim quando acordo - perdoa-me, eu quero sorrir para mim quando acordo.
Eu quero que os outros gostem de mim - perdoem-me, eu quero gostar de mim.
Eu quero que me sejas fiel - perdoa-me, eu quero ser fiel a mim mesmo.
E quando aprendo a minha lição, descubro que não há nada que pense de ti que não esteja já em mim. E não há nada que eu queira de ti que eu não queira de mim. E no fim, o que desejo que tu queiras? Aquilo que tu queres. Eu nunca saberei o que tu queres para ti, não é possível.
 
Quero para ti o que tu queres para ti.
 
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Úlima modificação em Terça, 29 Novembro 2011 05:43
Emídio Carvalho

Emídio Carvalho

Indústria: Educação
Ocupação: Formador/Terapeuta Educação Emocional
Local: Avanca : Estarreja : Portugal

Website: www.emidiocarvalho.com

2 comentários

  • Gostei muito, muito do que li. Obrigada pela partilha.

    Alexandra Vaz Quarta, 14 Dezembro 2011 08:48 Comentário Link
  • Querido Emídio,
    Este texto é fabuloso.
    Descobri que a mente quer que as pessoas à minha volta sejam como "cãezinhos amestrados".
    Bem hajas.
    Foste um dos presentes que a Vida me pôs no caminho.
    Um xi-coração
    Anabela

    Anabela Almeida Quinta, 08 Dezembro 2011 23:50 Comentário Link

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