Estamos continuamente a contar uma história sobre o passado, em vez de ver nele um professor. Alguns dizem-nos que sem um passado perdemos a noção do eu. Haverá algo mais delicioso que perder a noção do eu?... Quando o eu nada sabe, nada compreende, torna-se disponível para ser tudo.
E o melhor que há sobre o passado: já passou!
Enquanto a mente não regressar a si mesma, não é possível ter paz. A mente procura regressar a casa, regressar ao centro perfeito de si mesma. Aquele lugar onde se ama na totalidade, sem pressão exterior, sem respostas do exterior.
Quando acreditas num pensamento que te causa stress, observa onde sentes o pensamento, a emoção provocada pelo pensamento... Onde sentes? Até onde sentes, no teu corpo?
A mente pode ainda não saber isto, mas as pessoas não conseguem causar-nos stress, os nossos pensamentos sobre as pessoas é que nos causam stress.
A mente é como uma criança, procura sempre a verdade. Procura descobrir-se. E procura sempre ter razão. Mas que verdade? A verdade distorcida em que os outros são os maus da fita, e tudo nos acontece. Ou a verdade que tudo é perfeito tal como é. Seja como for, a Vida irá sempre acontecer sem a nossa autorização. Melhor estar em paz com a Vida. Observo que a Vida vive-se há milhares de milhões de milhões de anos. Confio plenamente nela. Sabe o que anda a fazer muito melhor do que eu alguma vez saberei.
Questionar a mente é como passear pelo deserto, com medo das cobras. Vemos uma cobra e temos medo, muito medo. Ficamos paralisados. Contamos a todo o mundo como a cobra é perigosa! Cuidado! E como a cobra não se mexe, descobrimos que afinal é uma corda! E podemos ficar mil anos a olhar para aquela corda que jamais iremos sentir medo. Não é possível. Com os pensamentos é o mesmo. Contamos uma história sobre o passado, e acreditamos nessa história. E o passado torna-se rígido, não se mexe! E de cada vez que contamos a história do passado sentimos medo, ou vergonha, ou culpa, ou arrependimento, ou mágoa, ou raiva. E um dia acordamos. E vemos o passado como o presente que foi da Vida para nós. E jamais conseguiremos sentir o que quer que seja em relação a este passado, para além de paz, gratidão, bem-estar. Fazemos as pazes com a Vida. E quando voltamos a contar a história, só conseguimos rir. A Vida é Sábia, descobre a mente.
Por outro lado, se queres terror e sofrimento, arranja um futuro. Não estou a dizer para não fazer planos. Fá-los. Mas não dependas deles para viver. Não vivas com condicionalismos. Se isto acontecer serei feliz, se não acontecer irei viver um inferno. Porque eu mereço! Desde quando?... Mas viver a acreditar que temos o poder de criar um futuro: um inferno. Criar objectivos, fazer o nosso melhor, viver em paz sabendo que fluímos com a vida. E se esses planos acontecem, óptimo. E se não acontecem? Um gelado de Haagen Dazs Chocolate Belga pode ser melhor que qualquer palácio à beira-mar! Só temos agora para desfrutar. Óptimo.
Nós só podemos viver a partir daquilo em que acreditamos. A partir das histórias que nos contamos. Adoro as pessoas que dizem que conseguem não pensar. Como se acordassem pela manhã e pensassem “hoje não vou pensar”. Tarde demais! Já estão a pensar! O pensamento não termina nunca. Mesmo quando o corpo físico morre, o pensamento continua, nas histórias daqueles que ficam. E em que acredita a mente? Que há um bom e um mau, um certo e um errado. A mente ainda não descobriu a perfeição da vida. Prefere manter-se no sofrimento do bom e mau.
Olhamos para o casulo em que se encontra a futura borboleta e começamos a gritar. “Muda! Sai do casulo! Será melhor para ti! Serás bela!” Pode parecer violento, mas sabemos que é para o bem da borboleta. A guerra é uma coisa má, mas para mim funciona! Acredita a mente. Sempre à espera que os outros a amem, a valorizem, a aprovem, digam que é boa. Muda! E a mente segue pela vida a criar guerra, sem consciência de toda a beleza presente num simples casulo.
Alguém diz-me “Emídio, não me estás a ouvir.” E a mente responde “como podes dizer isso? Claro que te estou a ouvir! Agora cala-te que tenho mais em que pensar!” – a guerra é uma coisa má, mas para mim funciona.
Claro que a mente pode questionar-se. Será que é verdade? Será que não estava a ouvir? É capaz de ser verdade. “Desculpa-me meu querido, és capaz de ter razão. Por favor ajuda-me a ouvir-te: chama-me à atenção sempre que notares que não te oiço.” – Paz.
Outros dizem que recebemos da vida o que merecemos. Pode ser Karma ou coisa assim. Observo que em realidade as pessoas não recebem na vida aquilo que merecem; recebem o que recebem. E o que recebem são pacotes de lições. Podem escolher aprender ou queixar-se. A queixa é a via mais fácil e rápida para viver um inferno. Que delícia! Agora que sei como criar um inferno, talvez me dedique a criar um céu.
A mente só consegue falar de 3 coisas: estas coisas aqui, aquelas ali e as outras além. E não é delicioso que sempre que falamos de uma destas 3 coisas é de nós que falamos? É sempre de mim que se trata. Não conheço mais nada a não ser eu mesmo. O ego projecta para o exterior aquilo que sabe existir no interior. E eventualmente a mente descobre-se. Silêncio. Não há coisas, só mente. Bem-vinda a casa, minha querida do coração.
Quanto menos precisarmos do amor dos outros, de ser reconhecidos ou validados pelos outros, mais livres nos tornamos. Quanto menos dependermos da aceitação dos outros mais disponíveis ficamos para amar incondicionalmente. Quando a opinião que os outros têm sobre nós nos é irrelevante não temos nada a perder ou a temer, e a liberdade torna-se total. Nada nem ninguém nos controla, a vida flui. Os braços mantêm-se continuamente abertos a todas as experiências.
Em qualquer situação que a Vida me oferece só posso perguntar-me: o que há de bom aqui para mim? E descubro, deliciado, que há sempre algo de bom para mim.
E se o teu pai era alcoólico? Quem te pode ensinar mais sobre os efeitos do álcool, o terapeuta que estudou cinco anos o alcoolismo, ou o teu pai?
E se a tua mãe te agredia fisicamente? Quem te poderia ensinar mais sobre a compaixão e o sofrimento, o filósofo que leu trezentos e quarenta e sete livros sobre o tema, ou a agressividade da tua mãe?
E se foste violada? Quem te prepara melhor para ajudar-te a descobrir o poder do amor-próprio, o guru mestre que veste branco e é vegetariano, ou o abusador?
A mente a descobrir-se é um espectáculo único. Delicioso.
Bem-vinda, querida mente. Bem-vinda ao coração.
