---

EMIDIO CARVALHO

---
Emidio Carvalho / Blog / A morte também é vida
A+ R A-
21 Jul

A morte também é vida

Avalie este Item
(8 votos)

Para o querido Henrique

Em qualquer situação só posso falar a partir da minha experiência. Se me perguntares se deves comer um gelado de chocolate, a minha experiência é que um gelado de chocolate sabe-me bem, não sei como te vai saber a ti. Se me perguntares se deves impedir o filho de ir a uma festa, não sei, nunca impedi um filho de ir a uma festa, nunca tive um filho.

E depois a mente recorda. Sim, tiveste algo que tratavas como a um filho: a Rita.

A Rita era uma cadelinha que me tinha oferecido ainda muito jovem. Era uma delícia ir para os prados com ela. Adorava brincar com ela e observar como ela se divertia comigo, com os gatos, com os meus amigos, e até com o vento. Durante muitos anos a Rita esteve presente na minha vida.

Sei que os corpos, neste planeta, eventualmente entram em decadência e morrem. E foi isto que aconteceu com a Rita também.

No fim observava como ela já não era capaz de suportar o peso do corpo. Arrastava-se, abanando a sua cauda, para vir ter comigo ou com os meus irmãos.

E observava como ela gania enquanto rastejava. A fiel companheira de mil brincadeiras e aventuras. Os seus olhos brilhavam, mas o corpo pesava-lhe. Sabia que lhe pesava porque as patas não suportavam o seu peso.

E depois descobri que a Rita estava viva por puro egoísmo doentio da minha parte. Eu precisava da Rita viva para eu estar bem. Eu não estava interessado no seu sofrimento, nem na sua incapacidade motora. Nada. Só a queria viva para eu estar bem. Para poder dizer “A Rita está aqui ao meu lado e é minha amiga”. A minha crueldade não tinha limites.

Quando me apercebi do jogo da minha mente, fiz as pazes. Falei com a Rita. Pedi-lhe desculpa pelo meu egoísmo. Se fosse possível trocarmos de posição eu há muito teria pedido para que pusessem fim à minha decadência física.

Foi assim que todos nos despedimos da Rita. Sabíamos que ela ficaria bem. A veterinária veio a casa (não queria causar-lhe o sofrimento de a meter num carro). Uma injecção e depois, a paz. A Rita continuava viva, no meu coração. Ainda está cá. Sempre deliciosamente a brincar, a mostrar-me que nada é assim tão importante. Que a vida flui.

A mente quer aqueles que ama vivos apenas para se sentir bem. A mente afirma “preciso que estejas vivo para eu estar bem”. E nesta crença permitimos que aqueles que amamos sofram.

Como é que eu sei o que é melhor para aqueles que amo? É o que está a acontecer agora. Como é que eu sei que o melhor para a minha mãe foi ter um avc? Foi o que lhe aconteceu. E por mais que eu grite que a vida é injusta, o avc já aconteceu. E quem sou para saber o que é melhor para os outros? Não sei. Mas sei que o que está a acontecer é o melhor.

Observo como nos funerais as pessoas choram. Não estão conscientes que a pessoa cujo corpo morreu teve uma vida plena e viveu o que precisava de viver. Não importa se o corpo morre ao fim de dois meses ou cem anos. Celebro a vida.

Mas quando preciso que os outros estejam vivos para eu estar bem, crio um pequeno inferno na minha vida e na vida daqueles que amo. E esta atitude não é amor.

Eu não sei o que é melhor para os outros. Mas sei o que é melhor para mim: o que está a acontecer agora. E o que é melhor para os outros? O que está a acontecer agora.

Tenho muitos animais (apesar de “tenho” não ser a palavra adequada – nunca tive nada). Cães, gatos, cabras, cordeiros, pombas, coelhos, gansos, ratos, patos, perus, galinhas. E sei que cada um serve um propósito. O seu propósito é aquilo que estão a viver agora. E só vejo neles o que está em mim. Quando um gato está velho e em decadência, que parte de mim está velha e em decadência? Ah, devem ser os velhos pensamentos gastos de tanta repetição. Quando mato uma galinha para fazer uma refeição, que parte de mim tem que morrer para me alimentar? Ah, já sei! A parte de mim que ainda acredita em mentiras como “não deveria haver sofrimento”.

E assim, querido Henrique, não posso dizer-te o que é certo para ti. A minha arrogância é diminuta. Apenas te posso falar da minha experiência. O corpo da Rita morreu. A Rita pode descansar depois de tantas brincadeiras. E observo a paz que fica em mim. Com a Rita ainda a brincar na minha mente e no meu coração.

A Rita ensinou-me que manter os outros vivos para estarmos bem é desumano. Mas esta foi a minha lição. Não sei qual é a tua. Mas se te questionares, pode ser que descubras também.

Só te posso dizer isto: é um privilégio conhecer-te e olhar-te e ver o coração enorme que palpita em ti. Um coração ainda um pouco confuso, mas sempre disponível para amar. Delicioso.

Joomla Templates and Joomla Extensions by ZooTemplate.Com
Úlima modificação em Quinta, 21 Julho 2011 22:42
Emídio Carvalho

Emídio Carvalho

Indústria: Educação
Ocupação: Formador/Terapeuta Educação Emocional
Local: Avanca : Estarreja : Portugal

Website: www.emidiocarvalho.com

2 comentários

  • Querido Emidio sinto o que escreveu,não tenho tido uma atitude de amor para com o meu filho.O mundo é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo dos seus proprios pensamentos. É o que me tem acontecido.Preciso que esteja vivo...para eu estar bem.Só estou pensando em mim qdo no dia a dia acuso o de só pensar nele e não me dar valor nenhum.Vivo a vida dele não lhe dou paz ,tenho que viver a minha vida.Beijinhos Emidio

    maria graça Sexta, 29 Julho 2011 01:55 Comentário Link
  • Não consigo tocar no pelo dos animais, Na família sempre houve animais:cães,gatos, cabras, ovelhas, cavalos,... e desde criança que me sinto toda arrepiada pelo simples tocar da cauda do gato nas minhas pernas ao ponto de saltar e ás vezes gritar de susto. Moro numa quinta e passo o tempo a pedir gatinhos. Consigo os gatinhos e passado pouco tempo desaparecem. Cuido deles e desaparecem. Uma coisa eu sei um dos meus objectivos em ter gatos é que comam os ratos. Querido Emídio penso haver algo em mim que não está compatível com a convivência com gatos. Goto de os ter embora não goste de lhes tocar - acto egoísta??.

    Filomena Pereira Quinta, 21 Julho 2011 22:11 Comentário Link

Deixe um comentário

O resgate dos aspectos negados, rejeitados e deserdados do ser humano. Descobrir o ouro por detrás da escuridão.

Comentários

Direitos de Autor

Copy text Allowed

Muitos me perguntam e pedem autorização para usar os artigos do Blog e das Newsletter no sites.

Autorizo a partilha em diferentes sites, desde que respeite as seguintes condições:

  1. Não copiar o texto na sua Integra
  2. Colocar o link da Origem do Conteudo.

O motivo é o facto de os Motores de pesquisa penalizarem o ranking dos sites sempre que detecta conteudo duplicado, ou seja o mesmo texto em diferentes caminhos URL'S.

Mais informações por favor contacte-me.

Emídio carvalho

Quem Está Online

Temos 3 visitantes em linha

Siga-nos no Facebook

Sessoes Individuais

Terapias que pratico:
Cura Reconectiva (Reconnective Healing); Reflexologia; Massagem Psico-sensual; Libertação Emocional; Toque Sagrado; Resgate da Sombra.
Mais Detalhes...

Contacto

Telemóvel: 916 055 021
Rotunda da Boavista, 60, 3º Traseiras
Porto - Portugal

Se por qualquer motivo não atender, por favor envia sms.

Add me to Skype