A Rita era uma cadelinha que me tinha oferecido ainda muito jovem. Era uma delícia ir para os prados com ela. Adorava brincar com ela e observar como ela se divertia comigo, com os gatos, com os meus amigos, e até com o vento. Durante muitos anos a Rita esteve presente na minha vida.
Sei que os corpos, neste planeta, eventualmente entram em decadência e morrem. E foi isto que aconteceu com a Rita também.
No fim observava como ela já não era capaz de suportar o peso do corpo. Arrastava-se, abanando a sua cauda, para vir ter comigo ou com os meus irmãos.
E observava como ela gania enquanto rastejava. A fiel companheira de mil brincadeiras e aventuras. Os seus olhos brilhavam, mas o corpo pesava-lhe. Sabia que lhe pesava porque as patas não suportavam o seu peso.
E depois descobri que a Rita estava viva por puro egoísmo doentio da minha parte. Eu precisava da Rita viva para eu estar bem. Eu não estava interessado no seu sofrimento, nem na sua incapacidade motora. Nada. Só a queria viva para eu estar bem. Para poder dizer “A Rita está aqui ao meu lado e é minha amiga”. A minha crueldade não tinha limites.
Quando me apercebi do jogo da minha mente, fiz as pazes. Falei com a Rita. Pedi-lhe desculpa pelo meu egoísmo. Se fosse possível trocarmos de posição eu há muito teria pedido para que pusessem fim à minha decadência física.
Foi assim que todos nos despedimos da Rita. Sabíamos que ela ficaria bem. A veterinária veio a casa (não queria causar-lhe o sofrimento de a meter num carro). Uma injecção e depois, a paz. A Rita continuava viva, no meu coração. Ainda está cá. Sempre deliciosamente a brincar, a mostrar-me que nada é assim tão importante. Que a vida flui.
A mente quer aqueles que ama vivos apenas para se sentir bem. A mente afirma “preciso que estejas vivo para eu estar bem”. E nesta crença permitimos que aqueles que amamos sofram.
Como é que eu sei o que é melhor para aqueles que amo? É o que está a acontecer agora. Como é que eu sei que o melhor para a minha mãe foi ter um avc? Foi o que lhe aconteceu. E por mais que eu grite que a vida é injusta, o avc já aconteceu. E quem sou para saber o que é melhor para os outros? Não sei. Mas sei que o que está a acontecer é o melhor.
Observo como nos funerais as pessoas choram. Não estão conscientes que a pessoa cujo corpo morreu teve uma vida plena e viveu o que precisava de viver. Não importa se o corpo morre ao fim de dois meses ou cem anos. Celebro a vida.
Mas quando preciso que os outros estejam vivos para eu estar bem, crio um pequeno inferno na minha vida e na vida daqueles que amo. E esta atitude não é amor.
Eu não sei o que é melhor para os outros. Mas sei o que é melhor para mim: o que está a acontecer agora. E o que é melhor para os outros? O que está a acontecer agora.
Tenho muitos animais (apesar de “tenho” não ser a palavra adequada – nunca tive nada). Cães, gatos, cabras, cordeiros, pombas, coelhos, gansos, ratos, patos, perus, galinhas. E sei que cada um serve um propósito. O seu propósito é aquilo que estão a viver agora. E só vejo neles o que está em mim. Quando um gato está velho e em decadência, que parte de mim está velha e em decadência? Ah, devem ser os velhos pensamentos gastos de tanta repetição. Quando mato uma galinha para fazer uma refeição, que parte de mim tem que morrer para me alimentar? Ah, já sei! A parte de mim que ainda acredita em mentiras como “não deveria haver sofrimento”.
E assim, querido Henrique, não posso dizer-te o que é certo para ti. A minha arrogância é diminuta. Apenas te posso falar da minha experiência. O corpo da Rita morreu. A Rita pode descansar depois de tantas brincadeiras. E observo a paz que fica em mim. Com a Rita ainda a brincar na minha mente e no meu coração.
A Rita ensinou-me que manter os outros vivos para estarmos bem é desumano. Mas esta foi a minha lição. Não sei qual é a tua. Mas se te questionares, pode ser que descubras também.
Só te posso dizer isto: é um privilégio conhecer-te e olhar-te e ver o coração enorme que palpita em ti. Um coração ainda um pouco confuso, mas sempre disponível para amar. Delicioso.
