Um amigo meu anda incomodado com a namorada. Ela anda triste porque sempre que lhe diz que o ama ele esquece-se de dizer que a ama também.
A mãe de uma amiga diz-lhe que está zangada porque ela está diferente, e esta amiga fica triste com a mãe.
Uma cliente quer marcar uma consulta para o seu filho adolescente porque tirou duas negativas no natal que a deixaram frustrada.
Um marido anda preocupado e frustrado porque a esposa não quer ter relações sexuais com ele.
Uma jovem mãe está ansiosa porque o seu chefe não reconhece todo o seu trabalho e pode perder o emprego.
Uma amiga virtual torna-se agressiva sempre que alguém não concorda com as suas opiniões.
E todo este mal-estar tem a mesma causa: valida-me! Aprova-me! Ama-me!
Se eu te amo, e pergunto-te se me amas, em realidade não te amo. Estou envolvido numa transacção comercial. Quero saber se estou a investir no produto certo. E o que estou a dizer é uma violência. Eu amo-te, tenho a liberdade de escolher quem quero amar: a ti. Mas tu não podes ter essa mesma liberdade. Tens que me amar a mim! Conseguem ver onde está a violência? É muita crueldade. Se para te amar tu tens que me amar de volta então eu não te amo, quero algo de ti. E neste processo perco a experiência do amor. Eu amo-te porque me faz sentir amoroso, faz-me sentir vivo, perfeito, feliz. E se espero que tu me ames de volta irei perder esta experiência.
E porque entramos em stress quando os outros não se comportam como queremos? Porque não somos honestos, e não queremos que os outros o sejam. Há uns dias uma querida amiga perguntava-me se eu gostava dela, porque acreditava que era uma pessoa difícil e problemática. Respondi-lhe que sim, gostava dela. Porque outro motivo estaria com ela 3 ou 4 vezes por semana? Ela voltou a perguntar-me se eu gostava mesmo dela. Respondi-lhe “Não ouviste a minha resposta, ou queres que te minta?” Quando perguntamos algo a alguém e depois de ouvir a resposta repetimos a pergunta o que estamos a fazer é a dizer “não estou interessado na tua resposta, quero ouvir a resposta que valida aquilo em que eu acredito.” Isto é crueldade.
Já no sexo acho divertido como a mente funciona. O que acontece entre duas pessoas que vivem uma relação íntima é qualquer coisa como isto: “a mim apetece-me sexo hoje, e não quero saber se tiveste um mau dia, se estás cansada, se não te apetece. A mim apetece-me, logo a ti também tem que te apetecer. Eu quero sexo contigo, tenho esse direito. Mas tu não tens o direito de dizer não. Prefiro que finjas.” Isto é crueldade.
A mãe diz que está preocupada com o filho que está doente. E o filho vê a mãe preocupada e quer que ela esteja bem. Responde-lhe com má cara, ou diz-lhe para ir dar uma volta. O filho quer uma mãe que não existe. A função das mães é preocuparem-se com os filhos (pelo menos neste planeta). Querer que a mãe não se preocupe é querer uma mãe que não existe. E sim, eventualmente a mãe pode despertar e descobrir que a preocupação é uma perda de energia. Mas querer que a mãe seja quem não é significa guerra. E é cruel.
Uma amiga queixa-se que um amigo lhe envia mensagens para o telemóvel várias vezes ao dia. Anda chateada com este amigo. Ainda não conseguiu ver que este amigo é a pessoa que envia mensagens várias vezes ao dia, e ela é a pessoa que lê essas mensagens. Ela ainda não descobriu que não tem qualquer poder para impedir o amigo de lhe enviar mensagens, mas tem todo o poder para as apagar sem ler. E enquanto lê cada uma das mensagens a sua mente ataca o amigo.
Outra querida amiga queixa-se que o companheiro a trata verbalmente mal. E queixa-se, e chora, e diz que está perdida. Ainda não viu que apenas a mente está perdida. Ela diz que quer estar com um homem carinhoso e meigo. E vive esta mentira diariamente. É óbvio que ela quer estar com um homem que abuse verbalmente dela, porque é com esse homem que ela está. Se não quisesse estar, já o teria abandonado. Há uns dias vi uma publicidade à violência doméstica. Mostrava o cadáver de uma mulher coberto de hematomas e ferimentos. E dizia que era o resultado de mais uma reconciliação. A publicidade em si é absurda. Se alguém me agredir só o fará uma vez. O melhor de uma agressão física é que já passou! Está no passado! Observo que aquela pessoa agride e afasto-me, não fico à espera que mude! As pessoas não mudam! Apenas eu posso mudar. E se tu me agredires, fico a saber que quando quiser ser agredido posso ir ter contigo. E entretanto afasto-me. Prefiro viver na rua a viver com alguém que me agride. Mas a grande, grande, grande maioria das pessoas ainda cai na mentira de amar alguém e esperar que esse alguém mude. Um absurdo, e uma crueldade. Vemos os defeitos no outro (que em realidade são os nossos defeitos) e temos fé que um dia esses defeitos desapareçam.
Por este motivo a fé pode ser perigosa. A fé, quando é uma luta com o presente (“meu deus põe-me melhor” ou “Nossa Senhora fazei com que ele mude”) só pode criar dissabores. Passamos a viver no futuro e perdemos a experiência presente e fingimos que o que está a acontecer não é importante porque virão dias melhores.
Ainda hoje ouço pessoas a afirmar que cada um tem na vida aquilo que merece. A mente louca! Observo que cada um de nós tem na vida o que tem. E a vida sabe sempre o que é melhor para mim. Se estiver atento, descubro.
Eu nunca tenho da vida aquilo que mereço. Tenho aquilo que tenho. Tenho amigos com corações enormes e carinhosos. Tenho a saúde que tenho. Tenho o dinheiro que tenho. Tenho os clientes que tenho. Tenho a casa que tenho. E poderei perder tudo. É ok. Eventualmente a história chega ao fim e o corpo morre. E morre sempre no momento certo, nem cinco minutos antes. Perfeito.
A mente luta para ter razão, para sofrer, para ser validada e amada. A mente não ama, quer coisas. O que queres dos outros? Enquanto quiseres algo dos outros irás sofrer, mas só 100% das vezes. E é ok querer algo dos outros, desde que sejamos honestos. Podemos oferecer o ramo de flores à namorada e fazer-lhe saber que depois da oferta queremos sexo. Ou podemos oferecer uma playstation ao sobrinho e fazer-lhe saber que em troca queremos que seja um bom aluno. Ou podemos abraçar um amigo e fazer-lhe saber que em troca queremos o abraço devolvido. Ou podemos preparar uma refeição para a família e fazê-la saber que em troca todos terão que mostrar apreço e dizer que foi a melhor refeição que já comeram. Assim mantemos a nossa integridade.
A atitude que me deixa em paz é esta: ofereço-te um ramo de flores porque me sabe bem oferecer-te, sinto um prazer enorme no acto da oferta. Ofereço-te a playstation porque me sabe bem ver-te contente e aos saltos. Ofereço-te um abraço porque a sensação de te sentir nos meus braços não tem preço. Ofereço-te a refeição que te preparei porque a sensação de ser de serviço aos outros deixa-me num estado de êxtase. Em realidade tudo o que ofereço é um acto de egoísmo. Faço-o porque me faz sentir bem. E se o fizer para receber algo em troca, não estou a oferecer, estou a entrar numa transacção comercial e não mostro a etiqueta do preço.
Amo-te. Poderia passar o dia inteiro a dizer isto. De cada vez que o penso ou digo, sou invadido por uma sensação de gratidão para com a vida. Adoro-te. Bem-hajas por existir. E não tens que mudar para que te ame. E eu tenho a opção de me afastar. Mas sempre a amar-te. Sabe-me bem.